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Ervas medicinais de índios
Dica Técnica

Edição: Fábio Luís Ferrari Regatieri

O uso de fitoterápicos vem se tornando cada vez mais freqüente. A grande biodiversividade nacional vem sendo explorada a anos pela cultura popular e, de maneira menos nobre, pela indústria farmacêutica nacional e estrangeira. Princípios ativos obtidos de ervas brasileiras estão sendo patenteados no exterior com freqüeência cada vez maior. Ou seja, pagaremos caro para ter medicamentos desenvolvidos a partir de nossa própria natureza.

Segundo matéria publicada no Jornal “Folha de São Paulo” , essa realidade começa a mudar, graças ao trabalho de pesquisadores da EPM-Unifesp (Escola Paulista de Medicina - Universidade Federal de São Paulo) junto à nação indígena Craô (Kraoh) , no norte do Tocantins. A seguir, fragmentos do texto publicado na edição da FSP do dia 01-01-2002 .

Índio brasileiro na arte de Gerhard Prokop .

Um grupo de pesquisadores da Unifesp-EPM (Universidade Federal de São Paulo) está mapeando o conhecimento sobre plantas medicinais da nação indígena Craô, do norte do Tocantins, com intenção de usá-lo na produção de remédios fitoterápicos.

Segundo o coordenador do projeto, o médico Elisaldo Carlini, o acordo firmado entre cientistas e curandeiros pode ser uma forma de permitir o acesso da indústria farmacêutica à cultura indígena que seja justa para os índios.

"Os índios terão de receber dividendos dos lucros. Nós estamos mantendo o nome científico das plantas em segredo até obter patentes", diz Carlini, que dirige o Cebrid (Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas), da Unifesp.

O trabalho de campo, realizado na “Kraolândia”, reserva indígena do cerrado com 16 aldeias, foi realizado pela bióloga Eliana Rodrigues, 33. Ela ganhou a confiança dos Craôs após dois anos de trabalho em três aldeias. "Tive contato com sete pajés, que eles chamam de "wajaca" na língua timbira", diz.

O esforço da pesquisadora, que recolheu 400 plantas, resultou na identificação científica de 138 espécies que provavelmente têm algum tipo de ação neurológica. Dez delas foram selecionadas para os primeiros estudos clínicos na Unifesp.

As plantas catalogadas por Eliana se dividem em cinco grupos principais:ansiolíticos, analgésicos, adaptógenos (fortificantes), um com ação sobre memória e o último com ação sobre metabolismo, para controle de peso.

O levantamento da cientista, que começou em junho de 1999, foi mantido em segredo até dezembro, quando a agência que financia o projeto, a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), o divulgou na revista "Pesquisa Fapesp".

A etnia dos craôs foi escolhida para o projeto por estar em região de cerrado, um bioma pouco explorado pela farmacologia. Essa estratégia levou os cientistas a diversas plantas de ação desconhecida, para as quais devem conseguir dentro de algum tempo o registro de uso fitoterápico. "Das 138 plantas catalogadas, apenas 11 foram objeto de estudos de outros pesquisadores, e só em dois desses estudos a propriedade analisada era a mesma", diz Rodrigues.

Índio Craô.

Por enquanto, os pesquisadores ainda não têm intenção de extrair o princípio ativo das plantas para fabricar medicamentos sintéticos. "Depois, à medida que se forem consolidando os fitoterápicos, pode ser feita pesquisa química para isso", diz Carlini.

Segundo o professor, estimativas iniciais indicam que o custo da pesquisa até um fitoterápico estar pronto no mercado poderá chegar a R$ 4 milhões, em um período de dez anos. "Isso é dezenas de vezes mais barato do que um medicamento produzido no exterior", afirma.

Com o mapeamento dos fitoterápicos em mãos, os cientistas aguardam agora a finalização dos termos do acordo que estabelece a divisão de eventuais lucros dos futuros remédios entre índios, universidade e indústria farmacêutica. "O acordo com os índios já está pronto, mas é muito difícil ratificar isso em termos legais", diz Carlini. "Eles não têm autonomia financeira e têm muito medo do poder público." O contrato será intermediado pelo advogado Marco Antônio Barbosa.

Na segunda etapa, pesquisadores devem submeter os extratos das plantas a testes em animais. Depois disso, as substâncias serão testadas em voluntários humanos sadios, para se avaliar sua toxicidade, e então em voluntários doentes, para avaliação de seu efeito medicinal. "Mas não precisamos esperar o remédio estar pronto para obter a patente. Podemos garantir direitos já no fim de 2002, com alguns dados obtidos com animais", diz Carlini. “

 
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