Dica Técnica
Edição: Fábio Luís Ferrari Regatieri
O dengue é uma doença infecciosa causada por um arbovírus (existem quatro tipos diferentes de vírus do dengue: DEN-1, DEN-2, DEN-3 e DEN-4), que ocorre principalmente em áreas tropicais e subtropicais do mundo, inclusive no Brasil. As epidemias geralmente ocorrem no verão, durante ou imediatamente após períodos chuvosos.
No Brasil há referências à dengue desde 1846, quando teria havido uma epidemia no Rio de Janeiro. Há registros de epidemias em São Paulo, entre 1852 e 1853 e em 1916. Em 1923 ocorreu uma epidemia em Niterói. A primeira epidemia documentada clínica e laboratorialmente ocorreu em 1981, em Boa Vista, Roraima, causada pelos tipos 1 e 4. Em 1986, a epidemia de dengue atinge o Rio de Janeiro, Ceará e Alagoas.
Só no Rio de Janeiro ocorreram 1.000.000 de casos. No Estado de São Paulo, em 1987, começa uma grande epidemia na região de Araçatuba, que se disseminou para outras regiões. Em 2000, já havia 64 municípios envolvidos com a transmissão, totalizando 3.520 casos no Estado de São Paulo.
Figura 1: A doença tem distribuição universal.
Na cidade de São Paulo existem casos importados de outros municípios desde 1986, sendo que no ano de 2000 ocorreram 122 casos (importados).
Em 1999 houve a primeira ocorrência de casos autóctones (pessoas que contraíram a doença no Município de São Paulo). Nesse ano foram registrados 2 casos, no Distrito Administrativo do Jaraguá. Em 2001, até o mês de março, ocorreram 78 casos autóctones e 137 importados.
O dengue pode ser transmitido por duas espécies de mosquitos (Aëdes aegypti e Aëdes albopictus), que picam durante o dia, ao contrário do mosquito comum (Culex), que pica durante a noite. Os transmissores de dengue, principalmente oAëdes aegypti, proliferam-se dentro ou nas proximidades de habitações (casas, apartamentos, hotéis), em recipientes onde se acumula água limpa (vasos de plantas, pneus velhos, cisternas etc.). O Aëdes aegypti atualmente está presente em cerca de 3600 municípios brasileiros. A transmissão do dengue é mais comum em cidades, pode também ocorrer em áreas rurais, mas é incomum em locais com altitudes superiores a 1200 metros. O único modo possível de evitar a introdução de um novo tipo do vírus do dengue é a eliminação do Aëdes aegypti. O Aëdes aegypti também pode transmitir a febre amarela.
O ciclo do Aedes aegypti é composto por quatro fases: ovo, larva,
pupa e adulto. As larvas se desenvolvem em
água parada, limpa ou suja. Na fase do acasalamento, em que as fêmeas
precisam de sangue para garantir o desenvolvimento dos ovos, ocorre a
transmissão da doença. A fêmea pica a pessoa infectada, mantém o vírus na
saliva e o retransmite. A transmissão ocorre pelo ciclo homem-Aedes aegypti-homem. Após a
ingestão de sangue infectado pelo inseto fêmea, transcorre na fêmea
um período de incubação que pode variar de oito a 12 dias. Após esse
período, o mosquito torna-se apto a transmitir o vírus e assim permanece
durante toda a vida.
Há basicamente duas formas de apresentação da doença: a dengue dita “clássica” e a forma “hemorrágica”.
A dengue clássica é usualmente benigna. Inicia-se com febre alta, podendo apresentar cefaléia (dor de cabeça), prostação, mialgia (dor muscular, dor retro-orbitária - dor ao redor dos olhos), náusea, vômito, dor abdominal, exantema máculo-papular (manchas na pele). No final do período febril podem ocorrer sangramentos, mas eles são raros na dengue clássica.
Os sintomas iniciais são os mesmos da dengue clássica, porém evoluem rapidamente para manifestações hemorrágicas de gravidade variável. Os casos típicos são caracterizados por febre alta, fenômenos hemorrágicos que vão desde leves sangramentos gengivais até manifestações graves, como hemorragia pelas gengival, cutânea gastrointestinal e intracraniana. Nos casos mais graves, após o desaparecimento da febre, o estado do paciente se agrava repentinamente, com sinais de insuficiência circulatória e choque. Este estado pode levar o paciente a óbito em 12 a 24 horas ou à recuperação através de tratamento de suporte apropriado.
Figura 2: Reprodução do Aëdes aegypti.
Existem três teorias para explicar o surgimento da dengue hemorrágica:
1. Estaria exposta a dengue hemorrágica uma pessoa que já tivesse contraído a doença anteriormente por um vírus diferente daquele que está circulando no local nesse momento. Por exemplo: uma pessoa contraiu dengue pelo sorotipo 1a entrar em contato, através da picada do mosquito, pelo sorotipo diferente do 1, (isto é: 2, 3 ou 4), poderá desenvolver um quadro clínico de dengue hemorrágica.
2. A dengue hemorrágica dependeria da maior virulência de determinadas cepas do vírus, isto é, existiriam formas virais mais agressivas do que outras.
3. Uma última explicação seria que as formas hemorrágicas da dengue estariam mais associadas ao sorotipo 2 e 3 do vírus.
A Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro recebeu nesta terça-feira, dia 05/Fev/2002, da Fundação Oswaldo Cruz – Fiocruz - a confirmação laboratorial da sexta vítima de dengue hemorrágica na cidade. Ainda há sete mortes pelo mesmo motivo diagnosticadas clinicamente na capital, mas que aguardam confirmação, o que faria o número aumentar para 13.
A sexta vítima da dengue hemorrágica no Rio é uma moradora do bairro de Ramos (zona norte), de 30 anos, cujo nome não foi divulgado pela Secretaria Municipal de Saúde. Ela faleceu no último dia 29 de janeiro.
De acordo com boletim divulgado pela Secretaria, já há 5.878 notificações da doença, sendo 108 de dengue hemorrágica.
Figura 3: Combater a doença é eliminar o vetor.
Até o momento não existem vacinas que previnam o aparecimento da dengue. Eliminar os ciradouros do Aedes é a ÚNICA maneira de evitar a doença. Assim, devemos disseminar entre a população leiga a idéia da erradicação (ou, pelo menos, do controle) do vetor através de medidas simples, como cobrir ou furar pneus; usar areia grossa em pratos de vasos de flores; ensacar e jogar no lixo vasilhames que possam acumular água; virar de boca para baixo garrafas vazias; tampar as caixas de água, etc.
Borra de café !!!
Matéria publicada recentemente no “Jornal do Commercio”, do Rio de Janeiro, vem sendo distribuída via e-mail para todo o Brasil e dá conta de uma receita para o combate da dengue dita como prosaica, mas eficiente, pois não envolve venenos perigosos à saúde humana e dos animais que conosco dividem o ecossistema urbano.
O mosquito Aedes aegypti pode ser combatido colocando-se borra de café nos
pratinhos de coleta de água dos vasos, no prato dos chachins, dentro das
folhas das bromélias, etc. Quem descobriu este efeito anti-Aedes da borra
foi uma cientista paulista, a bióloga Alessandra Laranja, do Instituto de
Biociências, Letras e Ciências Exatas da Unesp , Universidade Estadual de
São Paulo, campus de São José do Rio Preto, durante a pesquisa da sua
tese de mestrado - orientada pela professora Hermione Bicudo .
A borra de café, produzida diariamente em praticamente todas as casas, tem custo zero.
O único trabalho é o de colocá-la na água ou jogá-la sobre o solo do
jardim e quintal.
Os testes realizados em laboratório comprovaram que a borra de café é uma arma muito eficiente contra o mosquito
transmissor da dengue. Impede a postura, e quando esta
ocorre, o desenvolvimento dos ovos daquele mosquito.
Revolução
O estudo demonstrou cientificamente, que, em quantidades
adequadas, a borra do café bloqueia o desenvolvimento da larva do
Aedes aegypti. Parece uma panacéia mas não é, destaca a bióloga: a borra
de café pode revolucionar o combate ao inseto, tornando-se uma poderosa arma
contra a doença. A novidade adquire maior importância no momento em que o Brasil, já assolado pelas dengues dos tipos 1 e 2, prepara-se para o crescimento do número da casos da dengue tipo 3, sorotipo mais ligado à forma hemorrágica, que tem alta letalidade.
Os especialistas em saúde pública, entre eles os médicos sanitaristas,
estão saudando a descoberta de Alessandra Laranja, uma vez que além
da ameaça da dengue 3, possível de acontecer devido as fortes chuvas do verão, surge outra ameaça, proveniente do exterior,a dengue tipo 4. Conforme explica a bióloga , 500
microgramas de cafeína da borra de café por mililitro de água bloqueiam o
desenvolvimento da larva no segundo de seus quatro estágios e reduz o
tempo de vida dos mosquitos adultos.
Em seu estudo ela demonstrou que a cafeína da borra de café altera
as esterases, responsáveis por processos fisiológicos
fundamentais como o metabolismo hormonal e da reprodução, podendo
ser essa a causa dos efeitos verificados sobre a larva e o inseto adulto.
A solução com cafeína pode ser substituída por duas colheres de sopa de borra de café para cada meio copo de água, o que facilita o uso
pela população de baixa renda. A solução pode ser aplicada em pratos que
ficam sob vasos com plantas, dentro de bromélias e sobre a terra dos
vasos, jardins e hortas. Inseticida natural, serve também como adubo. Como
Alessandra Laranja explica, o Aedes se desenvolve mesmo na
película fina de água que às vezes se forma sobre a terra endurecida dos
jardins e hortas. Desenvolve-se também na água dos
ralos e de outros recipientes com água parada (pneus, garrafas, latas,
caixa d'água etc).
"A borra não precisa ser diluída em água para ser usada", destaca a
bióloga. Pode ser colocada diretamente nos recipientes, já que a água que escorre
depois de regar as plantas vai diluí-la.
Organofosforados
Atualmente, o método mais usado no combate ao Aedes
aegypti é o da aspersão dos inseticidas organofosforados, altamente tóxicos para
homens, animais e plantas. Estes inseticidas
são os do “fumacê” e do líquido usados pelos técnicos em saúde pública.
A bióloga discorda da utilização destes inseticidas: "A borra de café,
além de ter custo zero, não é tóxica nem prejudica as plantas, podendo servir
até como adubo". A pesquisa já foi apresentada à Superintendência de Controle de Endemias
(Sucen) do Estado de São Paulo e à Vigilância Sanitária federal. A
Prefeitura de São José do Rio Preto foi a pioneira na campanha de difusão
da informação sobre a borra de café como veneno contra o Aedes.
Naquele município estão sendo distribuídos folhetos explicativos
sobre o uso da borra.