Cientistas criam útero artificial.
Dica Técnica
Edição: Manuel Sanchez Mosquera
Cientistas estão criando úteros artificiais onde embriões podem se desenvolver fora do corpo feminino. O trabalho tem potencial revolucionário no tratamento de mulheres inférteis.
"Esperamos dentro de poucos anos criar úteros artificiais completos utilizando esta técnica," disse a Dra. Hung-Ching Liu do Centro de Medicina Reprodutiva e Infertilidade da Universidade de Cornell. "Mulheres com úteros danificados serão capazes de ter filhos pela primeira vez".
A velocidade do progresso neste campo deixou os especialistas atônitos. Úteros artificiais podem significar o fim de vários tipos de complicação durante o parto. Porém, também levantam questões éticas que serão discutidas na conferência internacional intitulada "O fim da maternidade natural" a ser realizada na próxima semana em Oklahoma.
"Teremos problemas de verdade" declarou o organizador do evento Dr. Scott Gelfand da Universidade Estadual de Oklahoma. "Algumas feministas já estão dizendo que o útero artificial significa que o homem poderia eliminar a mulher do planeta e ainda assim ser capaz de perpetuar a espécie. Isso é um
tanto alarmista, porém é evidente que a matéria é extremamente polêmica."
O trabalho da Dra. Liu e seus colegas involve a remoção de células do endométrio. "Aprendemos como cultivar estas células em laboratório utilizando hormônios e fatores de crescimento." Após a extração das células, a Dra Liu e seus colegas dispuseram camadas das mesmas sobre estruturas biodegradáveis de forma semelhante ao interior do útero. As celulas cresceram formando tecido e a estrutura de suporte se dissolveu.
Então, nutrientes e hormônios como o estrogênio foram ministrados ao tecido.
"Finalmente adicionamos embriões que haviam sobrado de programas de fertilização in-vitro ao tecido criado no laboratório. Os embriões aderiram às paredes de nosso útero-protótipo e começaram a se desenvolver". O experimento for encerrado após seis dias, contudo a Dra. Liu pretende continuar sua pesquisa, permitindo o desenvolvimento de embriões no útero artificial por 14 dias, o máximo tolerado pela legislação que regula fertilização in-vitro. "Poderemos então contatar se os embriões criam vasos sangüíneos nas paredes de nosso útero artificial. Verificaremos também se as células se diferenciam em orgãos primitivos e placenta primitiva".
O objetivo imediato deste trabalho é ajudar mulheres cujos úteros danificados as impedem de conceber. Nestes casos, úteros artificiais seriam criados a partir de sua próprias células endometriais, e o embrião seria colocado dentro dele, onde se acomodaria e iniciaria o desenvolvimento, após o que o útero seria colocado dentro de seu corpo. "O novo útero seria feito da células da própria paciente, portanto não haveria risco de rejeição" complementou a Dra. Liu.
Todavia, sua pesquisa é limitada pela atual legislação que rege a fertilização in-vitro. "No próximo estágio, deveremos solicitar pemissão para levar nossa
pesquisa além do limite de 14 dias imposto a pesquisas deste tipo".
Uma abordagem diferente foi utilizada pelo Dr. Yoshinori Kuwabara na Universidade Juntendo, Tokio. Sua equipe removeu fetos de cabras e os colocou em tanques plásticos esterilizados cheios de liquido aminiótico estabilizado à temperatura corpórea. Desta maneira, Kuwabara manteve os fetos
vivos e crescendo por até 10 dias, conectando o cordão umbilical a máquinas que bombeavam nutrientes e recolhiam os dejetos.
Enquanto o trabalho da Dra. Liu tem como alvo ajudar mulheres com dificuldade em conceber, o trabalho do Dr. Kuwabara visa ajudar mulheres com histótico de abortos ou partos muito prematuros. Desta forma, assim como a Dra. Liu está estendendo o tempo que um embrião pode ser mantido em laboratório antes de ser colocado no corpo de uma mulher, o Dr. Kuwabara está tentando dar ao feto um local seguro para se desenvolver caso seja expelido prematuramente do útero de sua mãe
"Essencialmente as pesquisas seguem na mesma direção, porém em sentidos
opostos", comentou o especialista em fertilidade Dr. Simon Fishel, do Park Hostipal em Nottingham, Inglaterra. "Entretanto, não será fácil fazer os dois trabalho convergirem no "meio do caminho". Existe uma infinidade de estágios críticos durante a gravidez, e outros inúmeros fatores que influem no êxito do processo. De qualquer forma, os trabalhos são muito excitantes."
"Existem sérias implicações éticas", como apontou Dr. Gelfand. "Para começar, existe a questão do aborto. À mulher é normalmente permitido fazer um aborto, baseando-se no princípio de que ela deseja se livrar de algo alheio que está dentro de seu corpo, o que significa atualmente matar o feto. Porém, se úteros artificiais forem desenvolvidos, o feto poderá ser
retirado para se desenvolver fora do corpo da mãe e depois do nascimento ser devolvido para que ela tome conta".
Além disso, se combinado com técnicas de clonagem, o útero artificial torna possível que casais Gay "dêem a luz" a seus próprios filhos. "Isto sem dúvida deixará os conservadores de cabelos em pé, ainda que as implicações do método
invalidem a alegação básica de mulheres que buscam autorização legal para abortar", adicionou o Dr. Gelfand, que ainda alertou que úteros artificiais podem ter conseqüências inesperadas na relação entre mulheres que trabalham e companhias de seguro-saúde. "Eles poderiam sugerir que mulheres não mais necessitariam ter direito a licensa maternidade, levando os empregadores a relutarem cada vez mais a conceder tais licensas". "Os úteros artificiais tem também o potencial de se tornar ambientes mais seguros que o útero natural,
que pode ser invadido por doenças, drogas e álcool provenientes do organismo materno. Neste caso, companhias de seguro-saúde poderiam insistir que mulheres adotassem o útero artificial".