Cirurgias cardíacas que incluem uso de circulação extracorpórea sempre estiveram associadas a risco de isquemia cerebral no intra operatório e no pós-operatório precoce.
Vários estudos estão trazendo novidades na prevenção desta grave complicação. Um dos focos de estudo atualmente aborda drogas que possam diminuir a incidência de dano cerebral. Entre as principais classes de drogas estudadas, encontram-se os beta-bloqueadores (BBs).
Pesquisadores da Duke University Medical Center, Durham, North Carolina, EUA, conduziram um desses estudos e concluiram que BB dados no pré ou intra operatório proporcionam grau significativo de proteção cerebral. O estudo recomenda que todos os pacientes submetidos a revascularização do miocárdio recebam estes medicamentos. Atualmente nos EUA, estima-se que dois terços destes pacientes já recebam algum BB.
A pesquisa, publicada ano passado no “Journal of Cardiothoracic and Vascular Anesthesia” é uma das primeiras a concluir sobre os benefícios dos BBs sobre complicações cerebrais. Muitos outros estudos têm demonstrado os benefícios cardiovasculares destas drogas. Os pesquisadores examinaram dados de mais de 2500 pacientes submetidos a cirurgias de revascularização do miocárdio realizadas no hospital da Duke University num período de 3 anos, procurando eventos com acidentes vasculares cerebrais (AVCs), ataque isquêmicos transitórios, encefalopatias e coma.

Somente 3,9% dos pacientes beta-bloqueados apresentaram alguma destas complicações neurológicas, contra uma incidência de 8,2% naqueles que não receberam a medicação. Complicações mais graves como AVCs e coma ocorreram em 1,9% dos beta-bloqueados, contra 4,3% do outro grupo.
Os benefícios dos BBs foram evidentes, até mesmo quando os pesquisadores resolveram colocar os pacientes dentro de grupos de risco como estado físico prévio, idade e presença ou não de diabetes.
Os BBs têm sido utilizados por pelo menos 30 anos no tratamento da hipertensão arterial, angina e arritmias cardíacas. Sua ação se dá bloqueando parte da ação de hormônios relacionados ao estresse, como a adrenalina e a noradrenalina., causando redução na freqüência cardíaca e na pressão arterial.
O estudo não foi desenhado para demonstrar as razões pelas quais os BBs protegem o cérebro.
Entretanto, o grupo de pesquisa tem suas hipóteses: sugerem que BBs agem controlando a fibrilação atrial (FA) e outras arritmias, implicadas como fatores de risco em AVCs e ataques cardíacos. A incidência de FA foi de fato reduzida entre aqueles betabloqueados. Todavia, o impacto sobre complicações cerebrais não pode ser totalmente explicado apenas pelo efeito anti-arrítmico.
BBs reduzem o estresse antes e durante a cirurgia. Em situações de estresse ocorre grande liberação de adrenalina e noradrenalina, com impacto negativo sobre a manutenção do fluxo sangüíneo cerebral. Assim, antagonizando estes hormônios, os BBs ajudariam a regularizar esta situação.
Outro papel advogado pelos pesquisadores seria a ação dos BBs como estabilizadores da coagulação sangüínea.
Segundo o Dr. Mark Newman, que liderou o estudo, todos os pacientes que puderem ser beta-bloqueados devem receber a medicação, inclusive durante a cirurgia, a fim de manter níveis séricos adequados. “Os dados estão se acumulando rapidamente e sugerem que BBs devem ser administrados – com poucas exceções – a todos os pacientes que forem submetidos a cirurgia de revascularização do miocárdio. É preciso dizer que este tipo de cirurgia tornou-se bastante segura e agora nós estamos refinando nossos métodos e procedimentos a fim de melhorar a qualidade de vida dos pacientes e maximizar os benefícios à saúde”.