Dica Técnica
O presente artigo é a tradução livre de um editorial do British Medical Journal, escrito por Richard Smith - BMJ 2004;328 (19 June).
Achamos interessante a visão autocrítica de quem publica, sobre o distanciamento dos textos dos jornais médicos e a realidade de quem pratica a medicina nos consultórios e hospitais. Boa leitura.
Alguns médicos são cientistas – da mesma forma que alguns políticos também o são – mas a maioria não é. Como estudantes de medicina, eles são obrigados a lidar com várias informações em bioquímica, anatomia, fisiologia e outras ciências.
Entretanto, informação não faz um cientista, do contrário você poderia se tornar um cientista assistindo ao “Discovery Channel”. Um cientista é alguém que constantemente questiona, gera hipótese (muitas vezes falsas) e coleta dados a partir de bem desenhados estudos. O tipo de pessoas que escova seus dentes apenas de um lado da boca, somente para ver se escovar os dentes traz realmente algum benefício.
A maioria dos médicos segue algum padrão ou regra, frequentemente improvisando em torno delas. Em seus métodos de trabalho se parecem muito mais com músicos de jazz do que com cientistas.
Questionar se médicos são cientistas pode parecer ultrajante, mas a maioria deles sabem que não são cientistas. Uma vez perguntei em uma sala com aproximadamente 150 educadores médicos quais deles se consideravam cientistas. Somente 5 deles levantaram suas mãos.
Se medicos não são cientistas, então parece estranho supri-los, como os jornais médicos fazem, com uma torrente regular de estudos científicos. Professores e trabalhadores da área social não enviam pesquisas originais. Enfermeiras talvez enviem um pouco, mas será que elas não estão simplesmente imitando os caminhos ilógicos seguidos pelos médicos?
A conseqüência inevitável é que a maioria dos leitores de jornais médicos não se detém na leitura de artigos originais. Podem até olhar com um pouco mais de cuidado os resumos, mas são muitos raros aqueles que leêm artigos do começo ao fim, apreciando criticamente o conteúdo. Na verdade, a maioria dos médicos são incapazes de fazerem uma apreciação crítica. Eles nunca foram treinados para fazer isso. Em vez disso, costumam aceitar o julgamento do corpo editorial e dos revisores do artigo – até que algum daqueles que realmente leem o texto resolve escrever e argumentar que o tal estudo é um absurdo científico.
Às vezes os leitores irão se deparar com um artigo como uma abelha se depara com uma flor para sugar um pouco de néctar. Este encontro se dá, eu suspeito, mais por razões pessoais do que científicas. Eu estou interessado no estudo que mostra um constante crescimento nas admissões hospitalares por pancreatite aguda entre 1963 e 1998 porque meu irmão teve pancreatite –Os autores notaram que o prognóstico da pancreatite aguda é pobre e a mortalidade não caiu muito desde os anos 70 – refletindo a ausência de inovações no tratamento.
Também fui atraído por um estudos no qual o princípio da incerteza é violado por provas clínicas. O princípio diz que você não deve conduzir um estudo se achar que um tratamento será melhor do que outro. A abordagem tenta ver se os estudos mais frequentemente favorecem o tratamento experimental. Eu imaginei que favoreceriam – e, de fato, favoreceram. Os autores, entretanto, julgaram que os estudos satisfizeram o princípio da incerteza. Não estou convencido...