Dica Técnica
Fonte: Uol News e Assessoria de Imprensa da SBC
Sociedade de Cardiologia ensina a usar DEA
A morte do jogador Serginho durante uma partida do Campeonato Brasileiro de 2004 despertou as autoridades para a importância do socorro imediato em casos de parada cardiorrespiratória. Na cidade de São Paulo, estádios de futebol, shoppings, aeroportos e supermercados -ou qualquer lugar por onde passem 1.500 pessoas ou mais por dia- serão obrigados talvez ainda este ano a ter desfibrilador.
A lei foi sancionada no dia 7 de Janeiro pelo prefeito José Serra e agora tem 90 dias para ser regulamentada. Quem não cumprir a determinação pagará R$ 2.000 por semana.
Médicos consideram que o uso do aparelho por leigos, combinado com procedimentos de reanimação como "respiração boca-a-boca" e massagens cardíacas, é um passo importante para salvar vidas. No início do ano, 50 juízes de futebol tiveram aula para aprender a operar o desfibrilador já nos jogos do próximo Campeonato Paulista. O treinamento foi feito no Hospital das Clínicas de São Paulo.
"Em média, 820 pessoas têm morte súbita a cada dia no Brasil", lembrou o cardiologista Agnaldo Pispico. "O acesso público ao desfibrilador pode fazer com que a sobrevida nesses casos suba de menos de 2% para 40% a 45%, em média."
"Desfibrilador é o único antídoto"
Em entrevista ao UOL News, Pispico, que é diretor do centro de emergência da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo, explicou que o desfibrilador é o único 'antídoto' para 80% dos casos de morte súbita. "Na maioria das vezes o mal é provocado por uma arritmia do coração e só este aparelho, que aplica choques elétricos, é capaz de reverter o quadro."
Para a eficiência do socorro, a recomendação internacional é que exista um aparelho a cada um minuto e meio em que uma pessoa caminhe por um shopping, aeroporto, etc. O custo é alto. Pispico afirmou que cada aparelho custa, em média, 4 mil dólares.
O cardiologista destacou que não basta somente o uso do desfibrilador. "O primeiro passo no auxílio à vítima é pedir ajuda especializada. O segundo é o chamado suporte básico, que é o boca-a-boca e massagem cardíaca, bem aplicados, até a chegada do desfibrilador", ensinou. Segundo Pispico é necessário um treinamento de 8 horas para que uma pessoa leiga aprenda os procedimentos básicos de ressuscitação.
Há risco de uso indevido do aparelho?
Para o médico, não há risco de uso indevido do desfibrilador como, por exemplo, aplicar o choque numa pessoa que tenha desmaiado simplesmente porque sofreu de pressão baixa. "O aparelho é auto-explicativo e a, qualquer movimento da vítima, a qualquer sinal de respiração, ele diz que não pode aplicar o choque", descreveu Pispico. "Se a vítima ficar sem respirar, o aparelho inicia a análise e, caso verifique que a pessoa tem o ritmo do coração normal, vai dizer que o choque é inadequado."
Homens a partir dos 35 anos representam mais da metade dos que sofrem morte súbita, segundo o cardiologista. "Mas as mulheres estão querendo ocupar este espaço", alertou. "Elas fumam, têm estresse, colesterol alto, trabalham em dois turnos -fora e em casa... Isso pode levar a risco maior."
A lei sancionada pelo prefeito José Serra, que torna obrigatória a existência de desfibriladores em locais com circulação diária de mais de 1.500 pessoas, já repercute na Sociedade Brasileira de Cardiologia, que precisou aumentar o número de cursos BLS, através dos quais capacita as pessoas ao uso do equipamento em casos de parada cardíaca.
“O BLS – Basic Suport of Life – pode ser ministrado em apenas cinco horas”, explica o cardiologista responsável pelo setor, Raphael Raphi, e é vital quando se sabe que em caso de parada cardíaca o choque recuperador deve ser ministrado nos primeiros quatro minutos após a ocorrência. O médico lembra que nessa janela muito curta de tempo, é praticamente impossível a chegada do atendimento especializado, motivo pelo qual a Sociedade Brasileira de Cardiologia/Funcor preconiza há muito tempo a existência de desfibriladores em áreas de grande concentração de pessoas.
“O procedimento que recomendamos em São Paulo é que, havendo suspeita de enfarte, quem estiver perto da vítima ligue para o SAMU, telefone 192 ou para os Bombeiros, 193 e imediatamente comece o procedimento de diagnóstico e ressuscitação através de massagem, respiração ou aplicação do choque, mas para isso é necessário que a pessoa esteja preparada”. Essa necessidade e o fato de que 300 mil brasileiros morrem anualmente devido a problemas do coração que não seriam necessariamente mortais, é que levaram a SBC a propor a lei obrigando a presença do desfibrilador tanto em São Paulo, como em âmbito federal, onde o documento legal está em fase de aprovação. “Como a Câmara paulista reagiu mais depressa, a lei municipal foi aprovada primeiro”, diz ele.
O braço paulista da SBC ofereceu 20 cursos de BLS no ano passado, capacitando 362 pessoas, mas este ano a expectativa é que o total seja muito aumentado e os cardiologistas garantem que não há problemas de infra-estrutura, existem bonecos e salas de aula suficientes. Os bonecos são manequins desenvolvidos especialmente para o curso, com ajuda dos quais o treinando tenta identificar a presença ou ausência de pulso, coloca o “corpo” de plástico na posição adequada e, em caso de comprovar a parada cardíaca, segue as instruções gravadas em áudio no desfibrilador e aplica o choque que faz o coração voltar a bater.
Os primeiros grupos treinados pela SBC foram de médicos de Prontos Socorros, seguindo-se comissários de bordo das empresas aéreas, que já contam com o equipamento nos aviões que fazem vôos de longa distância. No ano passado foi treinado pessoal ligado a times de futebol, principalmente depois da morte do zagueiro Serginho, do São Caetano, e em seguida funcionários do Consulado dos Estados Unidos e da CIPA – Comissão Interna de Prevenção de Acidentes de várias empresas, como a Henkel, por exemplo. Ainda agora estão sendo programados novos cursos, o que pode ser feito na própria SBC, ou através do telefone 3849-6438, ramais 29 ou 41.