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Mais a respeito do Antraz
Dica Técnica

Edição: Manuel Sanchez Mosquera

O Antraz é uma doença infecciosa que pode atingir praticamente qualquer animal de sangue quente, incluindo humanos. Causada pela bactéria Bacillus anthracis, é uma das doenças conhecidas mais antigas. Ocorreu em épocas passadas de forma epidêmica, o que ainda se sucede em algumas áreas do planeta.

Figura 1 : Placa de meio de cultura identificando o Bacillus anthracis

Seu agente causal foi descoberto por C. J. Davaine em 1863; em 1876 foi isolado em cultura de células por Robert Koch e a primeira vacina foi desenvolvida por Louis Pasteur em 1881.

A aquisição da doença se dá através de injestão de água contaminada dos lençois fréaticos ou reservatórios (nos quais a bactéria pode sobreviver por anos), por alimentos contaminados, por contato com animais infectados e através de picadas de inseto.

Figura 2 : Robert Koch -1843 - 1910.

A doenças, em humanos, apresenta três formas, dependendo da via pela qual o indivíduo foi infectado.

A primeira delas e menos grave é a forma cutânea. Uma lesão ulcerada, pouco dolorosa, é produzida. Se não tratada, pode se espalhar para outras áreas do corpo, contaminando o sangue e tornar-se mais grave e letal. A mortalidade associada a essa forma gira em torno de 5%.

Figura 3 : Lesão cutânea do Antraz ( braço )

O segundo tipo é o antraz intestinal. É adquirido por ingestão de água ou carne contaminada. Os sintomas iniciais são de uma diarréia comum, progredindo com febre e queda do estado geral. Quando atinge a corrente sangüínea, a doença se agrava e freqüentemente é fatal.

Vamos nos deter no terceiro tipo, que vem sendo associado com o bioterrorismo e tem sido fonte de preocupação para autoridades ao redor do mundo.

A terceira forma é a respiratória. A contaminação ocorre pela inalação dos esporos, que atingem os pulmões. Quando os sintomas da doença se iniciam, ela pode ser facilmente confundida com uma gripe comum. Entretanto, a tosse e a febre podem progredir rapidamente, levando o paciente a um estado de insuficiência respiratória e toxemia num período de um a 6 dias. Também conheçida como Doença de Woolsorter (pessoas que trabalham com lã), trata-se de uma doença bifásica.

A primeira fase é caracterizada por sintomas semelhantes a uma gripe ou resfriado, quando os esporos são carreados aos linfonodos mediastinais por macrófafos pulmonares, causando uma infecção supurativa com edema e hemorragia. Esta etapa pode levar vários dias e geralmente neste período a hemocultura é negativa.

A segunda etapa da doença desenvolve-se rapidamente com o aparecimento de falta de ar e cianose, podendo levar a hipotensão severa e choque. Nesta fase a hemocultura é positiva. Dura em geral menos de 24 horas e infelizmente, apesar da terapia, tem mortalidade muito elevada, em torno de 90%, devido ao grande número de bactérias produzindo toxinas presentes no organismo neste momento.

Figura 4: Antraz pulmonar.

Uma forma particularmente virulenta desta doença chamada " Antraz do campo de batalha " tem sido desenvolvida como arma biológica. Esta cêpa do Antraz é fatal a menos que a pessoa contaminada tenha sido vacinada ou antibióticos sejam administrados nas primeiras 12 horas pós infecção.

As penicilinas, as tetraciclinas e quinolonas são antibióticos eficazes no seu tratamento, exceto em casos rapidamente progressivos e fulminantes. A droga de escolha para as formas graves é a ciprofloxacina. Isto vem motivando uma grande procura pelo medicamento, que chegou a sumir das drogarias americanas logo após a divulgação dos primeiros casos. O aumento da demanda pelo Cipro, nome comercial mais famoso do antibiótico, provocou alta nas ações do laboratório Bayer, seu produtor.

O pior surto de Antraz já conheçido ocorreu em 1979, quando uma fábrica de armas biológicas em Sverdlovsk, na Rússia (atualmente Yekaterinburg) acidentalmente liberou esporos do Antraz, matando 68 pessoas.

O governo americano em algumas ocasiões cogitou a vacinação de toda a população contra o Antraz. Entretanto, devido à possibilidade real de modificações por engenharia genética, a opinião de cientistas e técnicos ficou dividida com relação à efetividade da vacinação em massa.

Uma pergunta que se faz é se o antraz é uma doença altamente contagiosa. A resposta é não ! Embora seja uma doença infecciosa e, portanto, com algum potencial de contágio, sua infectividade é baixa, pois depende da exposição a uma grande quantidade de esporos do B. anthracis. Na verdade, estima-se que seria necessário inalação de pelo menos 10.000 esporos para desenvolver a forma pulmonar. Exposições abaixo desse número geralmente são vencidas pelo sistema imune humano. Assim sendo, exposição à bactéria não significa infecção.

Em uma convenção sobre bioterrorismo realizada em 1993, técnicos estimaram que uma nuvem de 100 kg dos esporos de B. anthracis (uma quantidade absurdamente grande) liberada sobre Washington poderia causar entre 130.000 e 3.000.000 de mortes !

Figura 5 : Guerra bacterilógica ???

Na verdade, embora se trate de tecnologia avançada, a produção de Antraz é amplamente dominada por vários países. Autoridades americanas estimaram durante os anos 1990 que de 15 a 20 países possuiam armas biológicas em seus arsenais.

A forma utilizada nos recentes ataques aos EUA, propagando a bactéria através de cartas, tem um efeito mais “psicológico”, uma vez que expõe uma quantidade limitada de pessoas à doença. No entanto, causa grande insegurança entre a população civil, expondo-a à incerteza de quem será a próxima vítima.

As medidas que estão sendo adotadas, como a proposta de esterilização de cartas pelos Correios americanos, trazem à tona diversos problemas relacionados com o processo. Os equipamentos normalmente utilizados para esterilizar objetos médicos e certos tipos de alimento dificilmente poderão ser adaptados, ao menos a curto prazo, para uso em toneladas de cartas que diariamente abarrotam o sistema postal dos EUA.

Figura 6: Cartas viraram armas terroristas.

As alternativas eficazes para esterilização comumente utilizadas são as seguintes:

- Raios de elétrons: caros e grandes, difícil adaptação em prédios que não sejam projetados para receber esses equipamentos.

- Equipamentos de raios gama utilizam barras de cobalto e são excessivamente lentos para aplicação em larga escala.

- Esterilização a gas também é lenta e envolve um certo grau de humidificação dos pacotes.

- Esterilização a vapor poderia danificar também a correspondência.

Uma das soluções pode ser o uso equipamentos baseados em raios iônicos (IBA). O IBA é um acelerador de elétrons que poderia esterilizar aproximadamente 240 kg de cartas por hora. Poderia ser construída uma máquina capaz de esterilizar até 20 toneladas de cartas por hora, todavia o dispositivo necessitaria ser instalado num local concretado, com isolamento adequado, a fim de que a própria máquina não se torne uma ameaça à saúde das pessoas.

Desta forma, parece claro que a esterilização de grandes quantidades de correspondência, ao menos no momento, não é viável. Demandará tempo, dinheiro, espaço físico e maior desenvolvimento tecnológico até que tenhamos uma solução eficiente para esse trabalho em larga escala.

 
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