Dica Técnica
Em 2002 a American Society of Anesthesiologists (ASA) publicou o texto "Practice advisory for preanesthesia evaluation" (talvez traduzido por Conselhos Práticos para a Avaliação Pré-Anestésica) desenvolvido para auxiliar na tomada de decisão em áreas onde há insuficiente evidência científica para um modelo baseado em evidências. É uma síntese da opinião de especialistas, de fóruns abertos e da literatura disponível. Não tem o mesmo suporte da literatura que os Guidelines por falta de número suficiente de estudos controlados. Podem ser adotados, modificados ou rejeitados conforme as necessidades clínicas do paciente. Sugere-se que a avaliação pré-anestésica no caso de procedimentos altamente invasivos seja realizada antes do dia da cirurgia; nos procedimentos pouco invasivos, no dia ou na véspera. A informação obtida deve incluir, mas não se limitar, a descrição dos diagnósticos atuais, tratamentos incluindo medicamentos e terapias alternativas, determinação da condição médica do paciente. O exame físico deve incluir, no mínimo, avaliação de via aérea, pulmões e coração com documentação dos sinais vitais.
Sugere-se que não sejam solicitados exames rotineiros (na ausência de uma indicação clínica específica ou propósito) mas sim de modo seletivo com o propósito de orientar ou otimizar o manuseio perioperatório baseado nas informações obtidas do prontuário, da entrevista, do exame físico e do tipo e porte do procedimento planejado.
a) Eletrocardiograma – não houve consenso sobre a idade mínima para se solicitar. Pode ser indicado para pacientes com fatores de risco cardiovascular conhecidos ou com fatores de risco identificados durante a avaliação pré-anestésica.
b) Avaliação cardiológica pré-anestésica (além do eletrocardiograma) – pode incluir consulta com especialistas e solicitação de exames que variam de passivos não invasivos ou provocativos (ex.: teste de estresse) a acesso não invasivo e invasivo da estrutura, função e vascularização cardíacas (ex.: ecocardiograma, cateterismo cardíaco). Deve-se pesar os riscos e custos destes exames com seus benefícios. Considerar os fatores de risco cardiovascular e o tipo de cirurgia.
c) Radiografia de tórax – características clínicas a serem consideradas incluem tabagismo, IVAS recente, doença pulmonar obstrutiva crônica e doença cardíaca. Extremos etários, tabagismo, doença pulmonar obstrutiva crônica, doença cardíaca estável ou IVAS recente resolvida não podem ser consideradas indicações inequívocas para este exame.
d) Avaliação pulmonar pré-anestésica (além da radiografia de tórax) - pode incluir consulta com especialistas e solicitação de exames que variam de passivos não invasivos ou provocativos (ex.: testes de função pulmonar, espirometria, oximetria de pulso) a acesso invasivo da função pulmonar (ex.: gasometria arterial). Deve-se pesar os riscos e custos destes exames com seus benefícios. Considerar tipo e porte da cirurgia, intervalo da avaliação prévia, asma tratada ou sintomática, doença pulmonar obstrutiva crônica e escoliose com restrição funcional.
e) Hemoglobina e hematócrito – por rotina não são indicados. Considerar tipo e porte da cirurgia, hepatopatia, extremos etários, história de anemia, sangramento ou outro distúrbio hematológico.
f) Estudos de coagulação (ex.: RNI, TP, TPP, plaquetas) – considerar distúrbios de sangramento, disfunção renal, disfunção hepática e tipo e porte da cirurgia. Medicamentos anticoagulantes e terapias alternativas podem representar um risco adicional perioperatório.
g) Química sangüínea (potássio, glicose, sódio, estudos de função renal e hepática) – os valores podem diferir dos normais nos extremos etários. Considerar terapia perioperatória, distúrbios endócrinos, risco de disfunção renal ou hepática e uso de certos medicamentos ou terapias alternativas.
h) Exame de urina – não é indicado exceto para procedimentos específicos (ex.: implantação de prótese, procedimentos urológicos) ou quando sintomas do trato urinário estiverem presentes.
i) Teste de gravidez – a história e o exame físico podem ser insuficientes para detecção de gravidez inicial. Considerar para todas as mulheres em idade fértil bem como em história incerta de gravidez ou história sugestiva de gravidez atual.
j) Validade do exame – 6 meses antes da cirurgia é geralmente aceitável se a história do paciente não mudou substancialmente.
Referências Bibliográficas
Practice advisory for preanesthesia evaluation. A report by the American Society of Anesthesiologists Task Force on Preanesthesia Evaluation. Anesthesiology, 2002; 96:485-496.