Dica Técnica
Edição: Fábio Luís Ferrari Regatieri
Durante os últimos 150 anos um grande número de agentes inalatórios foram adotados na prática da anestesiologia – éter, clorofórmio, ciclopropano, entre outros – sendo gradualmente substituídos por outros com melhor performance. Entretanto o Óxido Nitroso (N2O), o primeiro desses agentes a ser utilizado para alívio da dor e da ansiedade, sobreviveu a séculos de história médica e ainda é recurso útil como adjuvante de anestesias gerais ou utilizado em uma mistura com oxigênio puro para produzir o que chamamos de sedação consciente.
Identificado primeiramente ao redor de 1774 pelo grande químico inglês Joseph Priestley, teve sua história precocemente ligada à da Odontologia, uma vez que já na década de 1840 um dentista, Horace Wells, conduziu uma série de estudos com o gás, empregando-o para o alívio da dor e disputando com William Morton a condição de criador da moderna anestesiologia.Em 1863, Colton reiniciou estudos sobre o uso anestésico do protóxido e em 1868 um cirurgião de Chicago chamado Edmund Andrews começou a utilizá-lo em combinação com o oxigênio, método que se tornou extremamente popular pela segurança e eficiência, lançando princípios até hoje utilizados em anestesiologia clínica e odontológica.

De fato, a mistura do protóxido com oxigênio em proporções que variam de 20 a 70% de N2O administrada por via inalatória, sem qualquer outra droga adjuvante, é a própria definição da sedação consciente. Utilizado em odontologia por vários países do mundo desde a década de 1950, notavelmente nos Estados Unidos (onde algo em torno 88% dos consultórios de odontopediatria empregam a técnica em seus pacientes) e na Europa, é considerado método seguro e efetivo no controle da ansiedade associado aos procedimentos odontológicos (odontofobia), proporcionando também um certo grau de analgesia que ajuda bastante, por exemplo, na infiltração de anestésicos locais.
Não se trata de anestesia geral, pois quando utilizado corretamente, mantém o paciente colaborativo e com seus reflexos de proteção íntegros. Administrado por um dispositivo nasal, não implica em entubação orotraqueal, nem em ventilação mecânica, sendo que o paciente preserva o controle da respiração. Devido às características do N2O, que não é metabolizado e é elimenado rapidamente pela via respiratória, a sedação pode ser revertida brevemente, num período de 3 a 5 minutos, caso seja necessário. Não é considerada boa prática a administração concomitante de qualquer outra droga depressora do sistema nervoso central, ao menos em consultórios odontológicos. Também não se trata de um substituto para a anestesia geral, a qual tem seu lugar na prática da odontologia e exige estrutura hospitalar para ser realizada.

Assim, exige-se do profissional que pretenda realizá-la um preparo adequado. Nos EUA e Europa o próprio dentista é habilitado para administrar a sedação. Nestes países, a sedação com protóxido está incorporada nos programas de graduação e há diversos cursos de especialização que estes profissionais podem fazer para complementar sua formação. Além do aprendizado da técnica em si, a preparação inclui aprofundamento de noções de monitorização, fisiologia e reanimação cárdio-respiratória.
No Brasil há uma crescente demanda pela técnica, que certamente vai exigir uma regulamentação legal, bem como estruturação didática a fim de preparar adequadamente a classe odontológica para realizá-la. Além dos modelos importados, a indústria nacional vem lançando aparelhos com diferentes graus de sofisticação e preços, mostrando que deverá prover equipamentos adequados para a execução da técnica.